nossa relação com a morte (#24)

2 de novembro de 2016

Das certezas que temos na vida, uma delas é a da morte.

 

Acredito que assim como eu, muitas pessoas não tem medo da própria morte – mas de lidar com os sentimentos e o vazio de perder as pessoas que mais amamos. Como se aquele buraco nunca mais fosse preenchido novamente.

 

A verdade é que não, ele não é preenchido. Aliás, ninguém é substituível (apesar de ter gente jurando que sim). Mas, de alguma maneira, aprendemos a lidar com a dor e com a falta e o monstro que antes ocupava o espaço da casa inteira, hoje repousa atrás de uma xícara no armário da cozinha. Independente do tamanho, ele sempre estará lá.

 

Já sofri algumas perdas irreparáveis e outras que eu não tinha nem idade e maturidade para entender. Mesmo depois de alguns anos, ainda fica aquele nó na garganta, aquele espaço cinza ocupando o lugar que antes habitava uma presença. Ou duas.

 

meus velhinhos amados

meus velhinhos amados

 

É difícil mensurar o sentimento que se tem quando alguém que a gente ama muito se vai. Das perdas que marcam minha história, as mais sentidas até hoje foram desses dois velhinhos simpáticos da foto, respectivamente minha vó e meu vô.

 

Apesar da idade, da saúde debilitada e da vontade de descansar a gente nunca acha que um dia a hora vai chegar. Temos a ingênua impressão de que tudo é pra sempre, que nada de ruim vai acontecer conosco, que as pessoas que nós amamos vão permanecer pra sempre ao nosso lado.

 

Quando a hora chega, faltam as palavras. O pensamento fica distante, em outro mundo. Você não acredita, acha que é brincadeira (de mau-gosto), que tudo não passa de um pesadelo. O chão fica mais próximo do rosto, o olhar, distante, busca entender e criar um enredo pra lidar com a avalanche de sensações que estão chegando aos poucos, como visitas numa festa sem balões.

 

Minto em dizer que as pessoas que amamos não ficam ao nosso lado. Elas ficam. De outra maneira. Enquanto lembrarmos de sua voz, do seu sorriso, das suas piadas e do seu jeito ranzinza de lidar com os problemas, eles sempre estarão vivos e permanecerão intactos num espaço sagrado da nossa cabeça e do nosso coração.

 

O dia dois de novembro, pra mim, não é um dia de tristeza. Não é um dia de lembrar. Não é um dia de visitar túmulos. É um dia de festejar a presença eterna e líquida daqueles que já se foram desse plano, que estão do outro lado (se você acredita nisso) e que por nós zelam e protegem todos os dias da nossa vida.

 

Aos que me protegem, minha gratidão de ter podido conviver com vocês nessa escola chamada vida.