o amor mora nos detalhes (#28)

6 de novembro de 2016

 

Demorei anos pra entender isso. Que o amor, independente de qual seja, mora dos detalhes.

 

Esqueça aquelas declarações de amor gigantes, aqueles gestos megalomaníacos, exagerados, sofridos e cartas quilométricas de “te amo, te amo, te amo”.

 

O te amo sem razão é só uma palavra sem fundo. Sem brilho e sem cor. Tão falsa e tão meramente ilustrativa que não significa nada além palavras proferidas sem sentido.

 

O amor mora nos pequenos gestos. Nos detalhes imperceptíveis. Nos olhares que se cruzam sem querer. Na proteção e na vontade de que aquela pessoa possa ser mais do que feliz.

 

O amor mora nas mãos dadas. No silêncio da manhã que preserva o sono do outro que ainda está dormindo. No saber dos detalhes mais específicos do dia: que tipo de geléia ele(a) gosta, se prefere o pão tostadinho ou mais branco, se quer o leite quente no microondas ou prefere ele gelado. Coisas que definitivamente não mudam o mundo, mas preservam aquele sentimento gostoso de cuidar e ser cuidado.

 

 

Lembro quando trabalhava de recepcionista em 2008 e fazia a dupla jornada de milhões de brasileiros: de lá corria pra recém-começada faculdade de jornalismo. Com o tempo cronometrado para chegar ao metrô, me apertar no vagão da linha vermelha e ir correndo pra universidade, as vezes sem tempo de comer antes da aula. Num desses dias, ao chegar a esquina do trabalho no caminho pro metrô, vi meu pai sentadinho com uma sacola nas mãos me esperando. Assustada com a (boa) surpresa, perguntei o que ele fazia lá: “trouxe um sanduíche pra você não entrar com fome na aula, vamos pro metrô? eu vou com você até a Sé”.

 

Esse é o amor no qual eu me refiro. No gesto de cuidado, de zelo, de preocupação. No “se cuida” que a gente sabe que é de verdade. Na carona até o metrô porque chove. Na mensagem de “como você tá?” quando não é uma boa semana. No chocolate dado sem motivo. No cafuné na cabeça. No abraço apertado. No beijo gostoso na bochecha. Na conversa honesta. No fechar das janelas da casa quando o outro sai do banho quente. Nas mãos na testa de horas em horas quando o outro fica doente. No conselho e na puxada de orelha preocupada com o nosso bem-estar.

 

Amor é o que mora nos detalhes. Que é construído, como uma casa, na base da confiança, lealdade, reciprocidade e empatia. Que é lido nos poemas e nas histórias de amor. Nas músicas. Na calada da noite. Nas mensagens escritas na madrugada. No “desce, tô aqui, quero te ver”. Nas surpresas da rotina. Nos sorrisos verdadeiros. No roçar dos pés numa noite fria. No futuro que criamos, nas histórias malucas e nos nomes dos filhos imaginários.

 

O amor é o amor. Pequeno na palavra, grande nos gestos.