a cidade vista de outro ângulo (#14)

23 de outubro de 2016

Hoje eu e meu marido fizemos um programa diferente: deixamos o carro em casa e fomos desbravar nossa cidade através do metrô e de bons quilômetros andando a pé.

 

Não gosto de dirigir. Acho chato e irritante. Mas acabo cedendo aos encantos do volante por pura preguiça, é verdade. Dessa vez, nos desafiamos a conhecer nossa cidade natal por outro ângulo – algo que sempre nos programamos de fazer mas, chegada a hora, desistimos. Hoje, finalmente, foi diferente.

 

Como boa apaixonada por livros que sou, o passeio perfeito pra mim consiste em ir na Livraria Cultura da Avenida Paulista e, se possível, perder-se entre os livros durante umas boas horas. E foi o que fizemos – só que, dessa vez, caminhando.

 

Descemos no Anhangabaú e fomos almoçar em um restaurante natural muito gostoso que fica na região. Andar pelo centro no domingo é uma experiência curiosa: ninguém tem pressa; não se ouve buzina ou xingamentos entre motoristas. Estranho, principalmente por se tratar de São Paulo.

 

De lá, resolvemos ir até a Paulista a pé, subindo a Rua Augusta desde o começo até o ponto que ela cruza com a avenida mais icônica da cidade.

 

Seria mais fácil ter ido de metrô? Sim. Mas talvez não teria sido um passeio tão rico e cheio de novidades.

 

Novidades porque nós enxergamos mas não vemos. Podemos passar pelo mesmo lugar durante anos dentro de um carro e sequer notar a presença de um prédio, de um vaso de flores numa casa antiga, numa loja de bugigangas numa portinha qualquer…

 

Andar é diferente de dirigir. Requer esforço físico, resistência ao calor, sapatos confortáveis e cabeça fresca. Requer prestar atenção ao redor. No carro estamos protegidos pela carcaça de ferro, borracha e vidro que nos cerca. Na rua você é só uma pessoa.

 

O calor estava grande – mas nada que uma passada numa padaria na próxima esquina pra refrescar.

 

Entre esquinas e conversas, chegamos na Paulista. Cercada por pessoas, cachorros, bicicletas e crianças. Fechar a avenida para os carros/ônibus aos domingos me parece uma das ideias mais incríveis que alguém já se propôs a fazer. Entre reclamações e discrepâncias políticas, há um fato que não podemos negar: a cidade é das pessoas; não dos carros.

 

Paulista <3

 

Andamos a avenida pela rua – algo que eu jamais imaginei fazer na minha vida. Entre os quilômetros que separam a Consolação do Paraíso nós paramos para ver umas quatro bandas, vimos duas manifestações, sentimos o cheiro do churrasquinho com sambão numa esquina e podemos nos deliciar ao assistir o desfile de várias raças de cachorros andando pra um lado e pro outro – tinha até um coelho com um casal! Coisas surreais que aconteciam diante dos nossos olhos, numa cidade conhecida pela tensão, pelo stress e pelos engarrafamentos. Se alguém me contasse, eu provavelmente não acreditaria.

 

Na volta pra casa, vim pensando em tudo que vi, ouvi, presenciei e senti hoje. Foi um sentimento gostoso, de pertencimento. De retomada de valores. O legal mesmo é dominar a rua, tomar Sol, tomar um sorvete, uma água de coco, parar e contemplar a música ou as pessoas que por lá passam. Legal mesmo é ter pés cansados de caminhar, de mover o corpo e as ideias. De se reinventar, de se propor um desafio de fazer diferente.

 

A partir do momento que a gente trata a cidade com respeito e contemplação, ela nos trata bem de volta.

 

Experimente, uma vez na vida, fazer diferente. E se possível, leve-se para passear sem rumo na sua cidade. Abra seu olhar para o novo e aguce sua curiosidade para descobrir velhas novidades, com a inocência de uma criança e a graça de quem sabe que a beleza existe nos pequenos detalhes.