patiently waiting

14 de junho de 2017

[texto feito ao som de Patiently Waiting, de Terrace Martin]

Da janela do meu quarto, consigo ver os aviões chegando. Devo morar bem perto do aeroporto – minha noção geográfica aqui ainda é um pouco limitada – mas sei disso porque consigo observar as aeronaves chegando de bem perto.

Sempre que vejo um avião chegando imagino as pessoas que estão dentro dele. Quais são suas histórias? Elas estão voltando ou chegando? Quem deixaram do outro lado?

Confesso que ultimamente tenho romantizado demais a distância. Porque pensar dessa maneira me conforta de estar longe.

Longe. Muitos mil quilômetros de distância me separam dos abraços que eu procuro quando tudo parece dar errado. Dez horas dentro de um avião, cruzando um oceano de pessoas, histórias, chegadas e partidas.

Eu parti levando na bagagem uma coragem que, hoje, reconheço como triunfo. Coragem de deixar TUDO, absolutamente TUDO, que eu conhecia, que me era comum. Coragem de encarar o desafio de se encarar de frente – o que é muito difícil e pouquíssimas pessoas o fazem. Aqui estou eu, com os portões do meu castelo escancarados, sem saber o que me espera pelos próximos meses – quem sabe anos.

Essa incerteza há alguns anos atrás me deixaria em pânico. E não que eu não esteja com medo. Que eu não me preocupe ou que, de repente, fiquei inconsequente. Mas hoje percebo que ter controle é uma ilusão, uma história bonita que contamos para nós mesmos na esperança que ela se realize.

Jamais diria que estaria onde estou há dois meses atrás. E essa é uma certeza que comprova a minha teoria.

Enquanto o meu mundo volta a ser pessoalmente aconchegante, eu espero. Espero os dias ruins passarem. Espero a saudade parar de doer. Espero o próximo avião. Espero o dia em que eu irei buscar meu amor na estação. Espero o dia que serei eu a estar dentro daquele avião, voltando pro aconchego da minha antiga vida, buscando tudo que me fará lembrar de casa e retornando a este admirável mundo novo com o banco do lado ocupado pelas mãos mais afetuosas do mundo e das quais eu sinto mais saudade quando a noite chega.

Eu já não sirvo no que fui. E é preciso um bocado de coragem para assumir isso. E mais do que isso, é preciso ter paciência. Paciência para entender o novo, dar-lhe boas vindas, oferecer-lhe sua melhor bebida e esperar que ele se sinta em casa. Esperar pacientemente.

janela do quarto