perdoando a si mesmo e aos outros

14 de novembro de 2016

 

Sempre fui de me cobrar muito. E longe disso ser uma qualidade. Essa mania de se manter nos eixos me trouxe mais coisas ruins do que boas. Porque a partir do momento que eu me cobrava demais, eu também cobrava demais das pessoas ao meu redor: família, amigos, marido… todos tinham de alguma maneira moldar-se aos meus conceitos e minhas idealizações que, como próprio nome diz, só aconteciam na MINHA cabeça.

 

E, claro, cerca de 99,9% da população do MUNDO não é EXATAMENTE aquilo que NÓS idealizamos. Porque somos o resultado das nossas experiências e histórias. São os acontecimentos e as presenças que moldam nossa personalidade, ainda criança. É claro que alguma coisa já vem pronta, numa espécie de disco rígido vindo já configurado de fábrica.

 

Mesmo sabendo disso, não criar expectativas ou não derramar nos outros as nossas aflições, esperanças ou planos é muito difícil. Porque, no fundo, somos mimados. Queremos que nossos desejos sejam atendidos na hora que pensamos nele – tipo o pedido de um prato no restaurante. Não sabemos esperar ou, se esperamos, ficamos impacientes, frustrados e chateados.

 

Digo isso por experiência própria, analisando meus próprios relacionamentos e minha relação comigo mesma – que sempre foi um misto de novela mexicana com conto de fadas da Disney.

 

A gente acha que perdoar dói. Que ter a humildade e grandeza de deixar pra lá é como ir pra forca, ter a cabeça arrancada em praça pública; é se humilhar, se rebaixar, ser fraco.

 

Hoje eu descobri que sofrer dói mais que perdoar, que acolher e que aceitar. Passei anos (e bote anos nisso) ruminando minhas fraquezas, minhas mancadas, meus defeitos e tudo que já fizeram de mal pra mim. Tudo MESMO.

 

Considero o fato de guardar rancor uma espécie de saco de lixo pesado, cheio de tijolos e pedras que cutucam as costas, ferem as mãos e não nos deixam livres para andar por aí, deixando muitas oportunidades boas passando desapercebidas, porque, afinal, estamos ocupados alimentando os monstros que se nutrem das nossas lembranças mais doloridas.

 

Eu decidi largar esse saco pesado no chão. Nos meus piores pensamentos, a consequência disso seria nefasta: me arrasaria, me deixaria no chão, me transformaria numa outra pessoa. E o que aconteceu foi exatamente ao contrário: ao deixar o passado no lugar onde ele pertence, me sinto livre; uma liberdade que é uma mistura de alívio com paz de espírito. E faz com que eu me pergunte: “porque eu carreguei esse saco durante tantos anos?”.

 

Hoje eu posso ser quem eu quiser. Independente dos meus defeitos, da minha história e das pessoas que nela estão. Porque eu me perdoei, me permiti perdoar e ser perdoada. Saí do papel de vítima das consequências do mundo pra me tornar protagonista da minha história. E isso já me basta.

 

Permita-se. Simplesmente perdoe e seja perdoado.