todos estão surdos (#22)

31 de outubro de 2016

Desde que comecei a assistir a terceira temporada de Black Mirror na semana passado tenho me questionado MUITO sobre a internet e a convivência humana. Aliás, se você está disposto a se questionar e se sentir desconfortável ao assistir uma série e perceber que estamos vivendo exatamente o que ela propõe, indico que você comece a ver Black Mirror imediatamente (disponível na NetFlix).

 

Um dos episódios que mais mexeram comigo foi o Nosedive – primeiro da nova temporada. Nele, um mundo em tons pastéis é cenário de uma vida vazia, fútil, baseada na percepção que os outros tem de você e, como consequência, um sistema de pontuação que define o quão perfeito(a) você é.

 

 

A nota máxima é 5.0 e ela te possibilita, entre outras coisas, ter descontos especiais, mais amigos e ser mais influente. As notas menores que 3.5 são consideradas dos fracassados e, nesse sistema maluco de pontuação, pessoas com notas menores têm menos amigos e dificilmente as pessoas gostam de ficar perto delas.

 

A partir do momento que você encontra uma pessoa na rua, tudo é avaliado. E, no final da conversa, cada pessoa te dá uma pontuação de acordo com a percepção dela sobre você. A avaliação é recíproca – como já acontece no Uber, por exemplo.

 

Para quem já se interessou em assistir o episódio para tirar suas próprias conclusões, encerro os detalhes por aqui. Mas aproveito para falar sobre o assunto de uma maneira mais real e do cotidiano.

 

essa imagem te soa familiar?

essa imagem te soa familiar?

 

Como diria Roberto Carlos, todos estão surdos. Mudando o título da música pra nossa realidade, todos estão surdos e cegos. Imagens como essa aí de cima estão cada vez mais recorrentes. As pessoas vivem hipnotizadas pela tela do celular em qualquer lugar, inclusive na mesa de um restaurante ou entre amigos.

 

 

Eu, particularmente, odeio essa mania. Acho uma alienação terrível. Uma inversão de valores e de conceitos que precisa ser discutida e ampliada com urgência. Fico triste quando vejo toda uma família na mesa de um restaurante entretida nos seus celulares. Quando percebo que fotografar o momento (tipo um show) é mais importante que ESTAR nele. Que as pessoas filmam acidentes, tiram selfie durante uma briga na rua, fotografam pessoas mortas na rua… estamos vivendo em um freak show onde nós somos os personagens do espetáculo?

 

 

Porque temos essa mania quase doentia de mostrar TUDO sobre a nossa vida? Porque temos que ter opinião sobre tudo e entrar em discussões e troca de textão no Facebook com a sabedoria de um doutor no assunto?

 

 

Eu, como consumidora diária de internet, sofro com o assunto. Sofro por que sei o quanto ela pode ser maravilhosa, mas o quanto nosso vício pode nos cegar e, pior que isso, fazer com que percamos nosso precioso tempo de vida discutindo se é biscoito ou bolacha, por exemplo.

 

O uso da internet, assim como qualquer assunto e área da nossa vida, requer equilíbrio. Saber ponderar é o principal. E consumir conteúdo que nos enriquece psicologicamente, que nos faz feliz, que nos torna maiores e mais sábios. Pra quê compartilhar coisa triste? Informação que você não sabe se é verdade? Discutir com gente que você mal conhece?

 

 

O antídoto pra esse veneno é a consciência. É trazer a discussão para a mesa do bar, conversar com amigos ou em grupos na internet. É participar de encontros presenciais sobre o assunto. É tornar o assunto realidade, mesmo que doa, mesmo que tenhamos que olhar pros nossos defeitos e pros nossos vícios. É entender que isso, mais pra frente, pode se tornar um problema muito maior e antecipar-se.

 

 

Pra começar a conversa, recomendo com muito orgulho o especial da Contente sobre o assunto, chamado Detox Digital. O material é rico em informações e nos possibilita pensar em saídas possíveis para a questão. Já o li umas três vezes e acho que ainda não foi o suficiente. Se alguém se interessar, pode clicar aqui para ser direcionado ao especial. 

 

E você? O que pensa sobre o assunto? O que faz pra se ‘blindar’ dos extremos?