vinte e sete

21 de novembro de 2016

 

Ontem, dia 20/11, eu fiz vinte e sete anos.

 

Mais do que comemorar, sempre uso a data do meu aniversário pra refletir sobre o que foi e o que eu desejo pro próximo ciclo porque, como todo bom escorpiano, acredito que a vida é feita de recomeços – e que o aniversário é o nosso ano novo pessoal.

 

Pensando nisso, posso considerar o ano que passou foi bem estranho. Estranho porque, de fato, nunca tinha passado por nada parecido.  E dele, entre mortos e feriados, estou saindo bem.

 

Foi um ano de olhar pra dentro. De devorar e ser devorada pelos meus monstros. De percorrer florestas escuras com a ajuda das palavras, do marido, dos amigos, dos médicos, da família. Não foi fácil e também eu nem esperava que fosse.

 

 

Não tenho vergonha de escancarar minha vulnerabilidade. De assumir meus defeitos, minhas falhas e meus erros. Hoje, depois de atravessar esse pântano lamacento, menos ainda.

 

Fui dispensada das consultas com a nutricionista. A compulsão alimentar, hoje, repousa em berço esplêndido. Não me sinto curada mesmo porque não há cura – há remissão do problema. Terei que me manter alerta para sempre, mas minha relação com a comida hoje é diferente. Mais madura e pensada. Ainda bem. Durante muito tempo nesses dois anos e meio me questionei se teria forças pra lidar com isso. Se continuaria em crise e, se sim, por quanto tempo a mais.

 

Foi o primeiro ano que tomei remédio pra controlar a ansiedade e a compulsão. Tarja preta. Lembro de ter tido o diagnóstico do médico numa noite chuvosa no meio da semana. Fiquei sem palavras. Logo eu, que não consigo manter silêncio. Fiquei sentada no chão, escorada na parede, pensando em toda minha trajetória e, pior que isso, tentando procurar onde eu tinha errado, porque eu era assim, porque eu tinha que tomar remédio e se eu ia ficar maluca com ele.

 

Respirei fundo, levantei do chão e logo tratei de me aprumar. Não adiantava nadar contra a correnteza. Naquele momento eu não tinha recursos internos pra lidar com toda a bagunça que tinha acumulado durante anos.

 

Comecei a tomar os remédios. Tempos depois, voltei pra terapia. Voltei a falar dos meus demônios. Os remédios, sozinhos, não são capazes de fazer nada. É preciso querer. É preciso indicar o caminho, dar o primeiro passo, tomar a frente daquilo. E eu fui. Com medo. Com muito medo. Mas fui.

 

Escrever aqui foi essencial para passar por esse processo. O texto “a importância de ser imperfeito” foi lido e analisado durante uma sessão, inclusive. Ele, pra mim, sintetiza tudo que eu já fui e não quero mais ser.

 

“Sou uma pessoa em constante reparo. Deve ser muito chato ter todas as respostas da vida na ponta da língua.

 

E nessa de querer se descobrir, acabo esbarrando na Júlia que eu já fui e na Júlia que eu quero ser. Percebo que algumas atitudes já não fazem sentido. Não é tão mais legal ser reativa, agressiva, preguiçosa. Não é tão legal fazer piada com o meu peso, com as minhas manias ou com a minha compulsão alimentar. Não é tão legal ser a piada.

 

Mas daí que vem a importância de sermos imperfeitos e reconhecermos isso: temos a chance de voltar atrás. De tentar de novo. De voltar pro reparo. De trocar de atitude e decidir ir por outro caminho. Se temos a humildade de reconhecer nossos fracassos e imperfeições, temos a grandiosa possibilidade de tentarmos de novo. E de novo. E de novo. Quantas vezes forem necessárias.”

 

Hoje me sinto no alto de uma das montanhas que terei que escalar durante a vida. Olhando pro horizonte a minha frente, eu perco as contas de quantas montanhas existem para serem atravessadas. Mas, só por hoje, só por esse espaço de momento, eu quero me orgulhar e respirar fundo, com o peito aberto e um sorriso largo no rosto; porque essa montanha aqui eu superei. Com as mãos calejadas, a roupa rasgada e o cabelo em frangalhos: eu cheguei até aqui. Eu subi essa montanha.

 

Não me importo em como estou agora, pra foto que vai ficar para a posteridade. O que importa dessa caminhada até aqui é que eu cheguei. Viva. E só eu sei quantos calos eu ganhei nos pés e nas mãos para estar aqui, escrevendo esse texto, contando pequenos fragmentos da minha vida.

 

 

 

Vinte e sete anos. Que hoje eu comece uma caminhada por outra trilha – a trilha que eu escolhi e sou totalmente responsável por ela. E que venham as próximas montanhas para serem superadas. Estou pronta e disposta para passar por todas elas.